Danila Bim, a bailarina que se tornou artista de "Cirque"

16.06.2018

Vitor Catanho para o Cirque Brasil


Dos clássicos movimentos do balé para os números acrobáticos aéreos, que desafiam a força, a flexibilidade e a concentração usando apenas os cabelos. Essa é uma das especialidades apresentadas pela brasileira Danila Bim, artista que faz parte do Cirque du Soleil.

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​Ainda na infância, Danila tinha o costume de praticar em casa, como brincadeira, o espacate, movimento da ginástica que permite que as pernas fiquem paralelas ao solo num ângulo de 180 graus. A facilidade em executar a técnica logo chamou a atenção de uma amiga da família, que perguntou se ela não tinha interesse em dançar.

Então, entre os 12 e 13 anos iniciou no balé na Escola Municipal de Dança, em Ribeirão Pires - ABC Paulista. Danila rememora que desde o início teve o incentivo de seus familiares.

Minha família sempre me apoiou, principalmente com o tempo deles, me levando e buscando nas aulas ou deixando de viajar em alguns feriados porque eu tinha uma apresentação. Quando há artistas em uma casa, todos dançam. E este apoio foi primordial!”

Mesmo gostando e se dedicando muito, Danila não pensava em construir uma carreira na dança, o seu objetivo profissional era atuar como designer, atividade essa, que realiza paralelamente com a sua rotina de apresentações no Cirque.

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Para agregar mais conhecimento na carreira de bailarina, além da curiosidade, Bim fez um curso de circo ministrado pelo professor Marcelo Milan na Escola Livre de Teatro em Santo André, também localizada no ABC Paulista. Ela achou interessante aquele universo e já imaginava treinar o número de trapézio ou arame. Contudo, o seu professor logo a imaginou executando outro número.

“Nos primeiros dias de aula ele (Marcelo) me olhou e disse: -Isso é uma lira, e é isso que você vai fazer. Eu não gostei da ideia, mas experimentei. Gostei e é isso que faço até hoje! Ele estava certo”.

Após sair do grupo de circo da Escola Livre de Teatro, começou a treinar números aéreos por conta própria. Teve a oportunidade de trabalhar no tradicional e centenário ‘Circo Stankowich’ pelo Brasil, no circo Americano ‘Ringling Brothers and Barnum & Bailey’ e, fez uma temporada no Cassino ‘Circus Circus em Las Vegas.

Danila continuou trabalhando e adquirindo experiências, mas no começo de 2009 recebeu o convite para participar do ‘Quidam’, espetáculo do Cirque du Soleil que estava vindo para o Brasil.

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Ela recusou a proposta porque na época tinha acabado de assinar um contrato com outra companhia circese e não queria quebrar o acordo. Entretanto, após 9 meses ela recebeu novamente o convite para integrar o mesmo show e resolveu aceitar, após ser liberada pelo diretor da companhia em que estava trabalhando, e logo foi integrada ao show ‘Quidam’, para realizar o numero aerial hoop. Ela considera essas experiências muito importantes para a sua carreira como artista circense.

Mas esse não foi o seu primeiro contato com o Cirque. Em 2006 ela participou de uma única audição em São Paulo para entrar na companhia. Não passou, mas vê o “não” como o mais importante da carreira.

“Obviamente eu não estava pronta. Eu tinha apenas 1 ano e 6 meses de circo, mas me deu um parâmetro de onde eu me encontrava tecnicamente e de quanto eu precisava melhorar se quisesse ser uma artista profissional de circo”.

Após o espetáculo ‘Quidam’, Bim também integrou o show ‘Volta’. Ela lembra que ficou sabendo da oportunidade de fazer parte do elenco de uma forma inusitada, por meio de uma publicação numa rede social.

Vi um post no Facebook de uma amigo dizendo que o Cirque estava procurando por um número de força capilar. E eu mandei um vídeo de 30 segundos para o casting. Eles me ligaram e pediram para que eu mandasse o ato todo. E assim, em dois dias me ofereceram um contrato”.

E enquanto o visto ficava pronto, a música foi composta baseada no vídeo que enviou para a companhia, assim como o figurino para a apresentação. Ela se juntou ao show faltando menos de duas semanas para a sua estreia mundial. “Tudo muito rápido, mas deu tudo muito certo”, recorda Bim.

A artista diz se sentir realizada com a oportunidade de levar a sua arte por meio de seus números aéreos para o público do Cirque du Soleil e que além de continuar realizando esse sonho no circo busca realizar tantos outros.

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"Pingue pongue":


Cirque Brasil: Como é a sua rotina no Cirque?

Danila Bim: “Geralmente, chego no circo por volta de meio-dia e vou tocar meu trombone, e na parte da tarde faço musculação e treino aéreos, e a noite temos o show”.


CB: Como surgiu o interesse pela técnica ‘hair hanging "’? Como foi sua preparação para o número?

DB: “Eu comecei a me interessar pela ‘Força Capilar’ para criar um ato onde eu tocaria meu trombone pendurada pelos cabelos. E, em outubro de 2016 o professor Latur Azevedo começou a me ensinar”.


CB: Quais foram suas referências artísticas?

DB: “Gosto de tanta coisa…Gosto muito dos trabalhos da coreografa Pina Bausch, James Thiérrée e da Cia Cirque Plume. Das obras de Caravaggio, da voz de Nina Simone, do Ney Matogrosso, do swing de Jorge Bem, Vivaldi e do Queen of the Stoge age! Mas acho que minha maior inspiração sem dúvida foi o meu primeiro professor de circo, Marcelo Millan.  Ele me ensinou que no picadeiro eu tenho que ser apenas uma pessoa, um ser humano diante de muitos outros. Com todos os meus medos, dores, alegrias e vitórias. Sem mais, e sem menos. E este ensinamento tem me guiado até hoje. Não entro em cena para mostrar que sou incrível, tenho uma habilidade ou sou melhor do que aqueles que me assistem, mas sim, para mostrar que como todas as pessoas da plateia, mesmo sendo apenas mais um ser humano, ainda se pode fazer coisas incríveis. E  assim todas as noites, as 3 mil pessoas que estão ali sentadas, voam comigo”.

"E assim todas as noites, as 3 mil pessoas que estão ali sentadas,  voam comigo"


CB: Aprendeu outras habilidades artisticas?

DB: “Sou estudante de Trombone, gosto de pintar e desenhar, Jogo 3 claves, adoro treinar corda e parada de mão é uma paixão. E adoraria cantar e atuar! Quem sabe um dia!”


CB: Qual foi o melhor lugar que você foi em turnê com Cirque? Por quê?

DB: “Eu adorei cada país em que já estive. Visitei mais de 40, e todos têm algo único para oferecer. Mas adorei comer e beber na Itália, passear pelas ruínas da Grécia e nadar em meio a natureza da Tailândia”.


CB: O que costuma fazer nos dias de folga nas cidades em turnê?

DB: “Visitar e conhecer as cidades onde estou ou descansar um pouco”.


CB: E nas férias?

DB: “Sempre tento visitar minha família e amigos no Brasil”.


CB: Como lida com a saudade, estando sempre longe de casa e família.

DB: “Criando laços com os que estão em tour comigo. E eu tenho a sorte de ter uma família que me apoia muito, e isso alivia um pouco a dor da saudade. E o Skype ajuda também!”


CB: Como é o relacionamento com os demais colegas na companhia?

DB: “Tenho a sorte de trabalhar com pessoas de todo o mundo. Profissionais incríveis que amam o que fazem. Todos se respeitam. É um ambiente muito saudável e criativo”.


CB: Já sofreu algum preconceito no mundo circense por ser mulher e latina? Ou por alguma outra questão?

DB: “Sim. Há sempre o estigma de que mulheres brasileiras trabalham apenas vendendo seus corpos. E eu não tenho nada contra estas profissionais mas, como artista circense o melhor a fazer e manter uma atitude firme, profissional e muito clara sobre as suas intenções”.


CB: Você namora um colega de elenco, certo? Existe alguma orientação do Cirque a respeito de relacionamento amoroso entre colegas?

DB: “Sim, namoro Wayne Wilson que é nosso palhaço. O Circo não é contra desde que não interfira no nosso trabalho”.


CB: Se não fosse artista circense ou bailarina, o que seria?

DB:Designer. Adoro criar! Ainda trabalho como designer de bolsas paralelamente ao meu trabalho no circo.


CB: Em algum momento já pensou em desistir?

DB: “Muitas vezes. Temos dias bons e dias ruins. Há dias em que o corpo está cansado ou a mente, ou a gente se cansa da rotina ou sente falta de casa. E mesmo assim, temos que pôr um sorriso no rosto e ir para o picadeiro como se nada estivesse acontecendo. É um trabalho com muitas exigências, mas sempre me lembro que na vida nada é fácil, então, desisto de desistir. Amo meu trabalho!”

"É um trabalho com muitas exigências,

mas sempre me lembro que na vida nada é fácil, então, desisto de desistir"


CB: Para você, o que diferencia a turnê de ‘Quidam’ da de ‘Volta’?

DB: “O ‘Quidam’ era um show mais velho com pessoas mais velhas, um ambiente mais calmo. Aqui no ‘Volta’ temos muitos artistas bem jovens ou sem experiência, o que torna tudo mais jovial e leve. Gosto da energia da juventude, mas às vezes a calma da experiência faz falta para o show”.


CB: Quais são seus planos pós ‘Volta’?

DB: “Quero criar um show solo ou com alguns amigos. Não sei muito bem ainda”.


CB: Se sente realizada em fazer parte do Cirque du Soleil? Era isso que você sonhava para sua vida?

DB: “Sim, me sinto realizada de poder estar no palco fazendo o que tanto gosto. É com certeza uma realização profissional mas não é a única. Tenho muitos sonhos para serem realizados”.

 


GALERIA

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HAIR HANGING - 'VOLTA'


vídeo

© 2020 - Vitor Catanho

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